Guia Hays 2026: 52% recusam ofertas em Portugal

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O Guia Hays 2026 revela que 52% dos profissionais em Portugal recusou pelo menos uma oferta de emprego em 2025 — o valor mais alto alguma vez registado. Ao mesmo tempo, 87% das empresas planeiam recrutar, mas apenas 67% dos candidatos está disponível para mudar. O mercado de trabalho português vive um desfasamento estrutural de 20 pontos percentuais, o maior desde 2011, que redefine as regras da contratação e dá aos trabalhadores um poder de negociação sem precedentes.

Porque recusam os candidatos

A recusa de ofertas não é um capricho. Os dados do Guia Hays 2026 mostram que o salário continua a ser o motivo principal, apontado por 62% dos profissionais. Seguem-se a falta de interesse no projeto ou função (35%), a localização (31%), as condições contratuais (29%) e a ausência de teletrabalho (22%). Para quem procura emprego em Portugal, a mensagem é clara: aceitar um contrato deixou de ser uma obrigação e passou a ser uma escolha consciente.

Apesar de 56% das empresas preverem aumentos salariais em 2026, 43% dos profissionais não antecipa qualquer melhoria na remuneração. Este desalinhamento entre o que as empresas oferecem e o que os trabalhadores esperam está a alimentar a recusa sistemática de propostas.

Setores com mais oferta

As áreas com maior prioridade de recrutamento em 2026 são os perfis comerciais (32%), tecnologias de informação (23%) e engenharia (20%), seguidos de funções de suporte administrativo (15%). O ManpowerGroup Employment Outlook Survey confirma a tendência: Portugal regista um Net Employment Outlook de +19% no primeiro trimestre de 2026, com o setor das tecnologias a liderar a procura.

Setores como indústria, construção e energia enfrentam particular dificuldade em preencher posições técnicas ligadas à manutenção, automação e perfis híbridos com competências digitais. A escassez de talento qualificado afeta diretamente a execução de projetos e o cumprimento de prazos.

Transparência salarial deixou de ser opcional

Segundo o estudo, 85% dos profissionais sentem-se mais motivados a candidatar-se quando o salário é indicado no anúncio. No entanto, apenas 26% dos empregadores divulga bandas salariais e só 25% refere existirem critérios claros para aumentos. Cerca de 70% dos anúncios de emprego em Portugal não inclui qualquer referência à remuneração, segundo dados do Jornal Económico.

Este cenário ganha peso com a entrada em vigor da Diretiva Europeia sobre Transparência Salarial (UE 2023/970), que obriga as empresas a maior clareza na divulgação de remunerações e critérios de progressão. Para os candidatos, a transparência salarial deixou de ser um diferencial e passou a ser um fator essencial de confiança na escolha de um empregador.

Formação: a arma dos candidatos

Num mercado onde contratar é difícil, a formação assume um papel central. A maioria das empresas afirma investir em desenvolvimento de talentos, mas 31% dos profissionais diz não receber qualquer tipo de apoio. As empresas privilegiam competências técnicas (60%) e digitais (53%), enquanto 39% dos profissionais admite precisar de reforçar competências e 27% já investe ativamente na sua formação.

O apoio financeiro à formação externa e a existência de percursos claros de carreira são os fatores mais valorizados pelos candidatos. Para quem procura emprego, investir em formação contínua — designadamente através de cursos do IEFP ou de programas de especialização tecnológica — pode ser decisivo para negociar melhores condições.

Inteligência Artificial muda o jogo

A Inteligência Artificial já é utilizada por mais de 60% das empresas e profissionais em Portugal, com benefícios comprovados em produtividade, análise de dados e criatividade. Contudo, a capacitação não acompanha o ritmo da adoção: 34% dos profissionais não recebeu qualquer formação em IA e 20% aprendeu de forma autodidata.

Para a Hays, a IA pode ser uma alavanca para responder à escassez de talento, desde que acompanhada por formação estruturada e políticas claras. Os candidatos que dominam ferramentas de IA têm uma vantagem competitiva crescente no mercado de trabalho português.

O que isto significa para si

O mercado de trabalho em Portugal está estruturalmente diferente do que era há cinco anos. As empresas querem contratar como nunca, mas enfrentam uma escassez real de talento. Os profissionais, por sua vez, estão mais seletivos e conscientes do seu valor de mercado.

Para quem procura emprego em Portugal em 2026, há três conclusões práticas:

  • Negocie o salário: com 52% dos candidatos a recusar ofertas, o poder está do lado de quem tem competências. Não aceite a primeira proposta sem comparar.
  • Exija transparência: a Diretiva UE 2023/970 dá-lhe o direito de conhecer as bandas salariais. Use essa informação nas candidaturas.
  • Invista em formação: as áreas com mais procura (comercial, TI, engenharia) valorizam competências digitais e de IA. O IEFP oferece formação gratuita e certificada.

Portugal ocupa o 12.º lugar na União Europeia em taxa de emprego, com 79,6% em 2025, acima dos 78,5% do ano anterior. O mercado cresce, mas as regras mudaram. Quem se adaptar sai a ganhar.